Um Dia - David Nicholls


"De uma forma irracional, e nada razoável, Dexter sentiu... o quê? Ciúme? Não, ciúme não, talvez só uma certa mágoa. Sempre imaginou que Emma estaria por perto, alguém a quem poderia recorrer a qualquer momento, como um serviço de emergência." (p. 158)

Um Dia foi um livro que trouxe sentimentos ambíguos para mim. Nas primeiras cinquenta páginas eu amei o livro, e o carregava comigo como um filho porque simplesmente não conseguia me separar de Dex e Em. Depois comecei a achar tudo muito chato, uma raiva incontrolável de Dex, uma vontade de socá-lo. Depois que Em pareceu dar a volta por cima eu voltei a amar o livro, até a página 363, quando uma onda de fúria e indignação me fez abandonar o livro por quase uma semana. Uma amiga, a que me emprestou o livro, me aconselhou a ler o último capítulo, que ele salvava o livro todo. Eu li, e ele realmente salvou. Agora acho Um Dia o livro da minha vida!

Emma Morley e Dexter Mayhew se conheceram de 15 de julho de 1988, no dia da formatura de ambos. Na verdade eles já se conheciam, apenas ficaram bem mais íntimos depois da noite que passaram juntos. A conexão entre ambos foi tão grande, que depois desse dia, por vinte anos, eles não conseguiram mais se separar. E por anos, sempre no dia 15 de julho, conhecemos um pouco mais da história de amor e amizade dos dois.

Na verdade, uma história muito mais de amizade do que amor, pois os dois são tão diferentes, que parece impossível que um dia consigam ficar juntos. Dexter é um hedonista muito confiante e galinha, bonitão e bem nascido, que não tem receio de usar e abusar de sua sedução para conseguir o que quer. Emma é muito inteligente, centrada, idealista e cheia de sonhos, mas sem confiança alguma. E mesmo com todas essa diferenças, o casal consegue compor uma das mais belas histórias que já li.

Durante anos, eles vão passando por mil coisas: lutam, constroem, destroem, se amam, se separam, encontram outras pessoas.
Em e Dex. Dex e Em. 
Eles se completam e estão sempre juntos, mesmo que separados. 
E coroando essa história, está a narrativa de David Nicholls, que conseguiu me fazer visualizar cada passagem do livro como a cena de um filme. Com certeza, isso não se deve somente ao fato dele ser um premiado roteirista, mas também ao seu talento ímpar de criar personagens tão intensos.

Sim, porque esse é outro ponto forte do livro. Todos os personagens do livro são muito bem construídos, até os secundários. E são tão reais e verossímeis, que se parecem com pessoas do nosso cotidiano, gente que podemos encontrar com facilidade andando por aí.

Dex conseguiu ser um dos personagens mais odiado, e ao mesmo tempo amado, por mim. Ele é tão seguro, tão cheio de si, que tem certeza que Em sempre estará lá, esperando por ele (como coloquei no primeiro quote lá em cima). Ele é capaz de fazer absurdos com ela, não enxerga as necessidades da amiga e é incapaz de olhar para outro lugar que não seja o próprio umbigo. E essa atitude vai lhe trazer muito sofrimento e perdas, aliado a um problema sério com drogas e bebidas. Mas mesmo assim, isso não lhe dava o direito de ser o escroto que foi em 80% do livro. Por isso, para mim uma das melhores passagens do livro é quando Em finalmente dá um basta nele, em 1995 (para perdoá-lo depois, em 2001).

"-Vamos lá, Em, ainda somos amigos, não somos? Sei que tenho andado meio estranho, mas é que... - Emma parou, mas não se virou, e Dexter sabia que ela estava chorando. - Emma?
Emma virou-se rapidamente, caminhou até ele e puxou seu rosto contra o dela, o rosto quente e úmido encostado no dele, falando depressa e com voz baixa no seu ouvido, e por um instante de glória Dexter pensou que seria perdoado.
-Dexter, eu te amo muito. Muito, muito, e provavelmente sempre amarei. - Os lábio dela encostaram no rosto dele. - Só que eu não gosto mais de você. Sinto muito." (p. 206)

Já Emma é incrível e eu duvido que alguém consiga ler esse livro sem se identificar com ela. Inteligente, espirituosa, sarcástica, só lhe faltou a determinação para correr atrás do que queria - principalmente Dex. Ela é insegura, medrosa mas ao mesmo tempo tão doce que é impossível não gostar dela. Mesmo com ela ficando anos trabalhando como garçonete tendo se formado com louvor na universidade; mesmo quando ela aceita ficar com Ian, o típico homem bonzinho mas sem graça; mesmo ela se dizendo horrenda quando todos os outros personagens dizem que está linda. E sabem por que? Porque todos nós temos um pouco dos medos e incertezas da Em, todos vacilamos diante dos problemas e receiamos não tomar a melhor decisão. E todos temos em nós os mesmos sonhos que ela e sabemos que a realidade não é tão simples como queríamos que fosse.

"'Viver cada dia como se fosse o último' - esse era o conselho convencional, mas na verdade quem tinha energia para isso? E se chovesse ou você estivesse de mau humor? Simplesmente não era prático. Era bem melhor tentar ser boa, corajosa, e se esforçar para fazer a diferença. Não exatamente mudar o mundo, mas um pouquinho ao redor. Seguir em frente, com paixão e uma máquina de escrever elétrica e trabalhar duro em... alguma coisa. Mudar a vida das pessoas através da arte, talvez. Alegrar os amigos, permanecer fiel aos próprios princípios, viver uma paixão bem plenamente. Experimentar coisas novas. Amar e ser amada, se houver oportunidade." (p. 408)

Que atire a primeira pedra quem aqui nunca pensou assim, ou ainda pensa - como eu!

E para encerrar, devo confessar que essa resenha foi quase um parto para mim. Eu terminei a leitura desse livro tem  dois meses, e fiquei tão abalada com a história, tão comovida, que não conseguia me decidir como escrever sobre Um Dia. Reli uma boa parte do livro hoje, antes de sentar para fazer a resenha, e ainda assim, não consegui expressar da maneira correta tudo o que eu gostaria de dizer sobre esse livro. Mesmo porque, eu não quero soltar spoilers e estragar a leitura de quem ainda não conhece o livro. Mas em resumo: leiam! 

B-jussss! ♥
;-p


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