O Ódio que Você Semeia - Angie Thomas


THOMAS, Angie. O Ódio que Você Semeia. Tradução Regiane Winarski. Rio de Janeiro: Editora Galera Record, 2017. 378 p. Título original: The hate u give. Skoob. Comprar.

Sinopse
1º lugar na lista do New York Times. Uma história juvenil repleta de choques de realidade. Um livro contra o racismo em tempos tão cruéis e extremos
Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial.
Não faça movimentos bruscos.
Deixe sempre as mãos à mostra.
Só fale quando te perguntarem algo.
Seja obediente.
Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto.
Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos - no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início.
Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa.
Angie Thomas, numa narrativa muito dinâmica, divertida, mas ainda assim, direta e firme, fala de racismo de uma forma nova para jovens leitores. Este é um livro que não se pode ignorar.

Umas das razões mais fortes que me fazem amar a leitura é o fato do livro poder ser um veículo de denúncia social, de conscientização para os problemas que nos cercam, um alerta para a violência constante em nossa sociedade. Tão constante que já está quase naturalizada. Não nos choca tanto ver nos noticiários a morte de crianças vítimas da violência, especialmente se elas forem pobres e negras.

Ninguém se lembra do Eduardo, do Alan ou da Maria Eduarda, crianças negras que perderam suas vidas pelas mãos da polícia. Pelas mãos daqueles que deveriam protegê-las. Infelizmente histórias como essas são cada vez mais comuns e foi depois do assassinato de Oscar Grant, nos Estados Unidos, que Angie Thomas começou a pensar em escrever esse livro. Ela não queria mais se calar, se conformar com a violência e desse desejo nasceu a incrível história de Starr, uma adolescente criada no gueto e que se divide entre a realidade de onde mora e da escola particular onde ela e seus irmãos estudam.

Starr é como qualquer outra garota da sua idade, gosta de estudar, de Harry Potter e de basquete. O que a diferencia é que, mesmo tão jovem, ela já viu dois de seus melhores amigos serem assassinados. Primeiro Natasha aos seis anos de idade, e agora Khalil, morto por um policial durante uma batida. Khalil estava desarmado e foi atingido pelas costas, mas o policial e a imprensa fazem parecer que a culpa é dele, por ser negro, por ser pobre e morar no gueto, e pela suspeita de que o garoto andava traficando. 

O caso ganha grande repercussão e Starr é a única testemunha do que aconteceu. Agora ela precisa decidir entre dizer a verdade e defender seu amigo das calúnias, expondo a si e à sua família; ou se calar e permanecer em segurança.

“Mas isso é maior do que eu e maior do que Khalil. É relevante para Nós, com N maiúsculo; todo mundo que se parece conosco, se sente como nós e está sentindo essa dor conosco, apesar de não me conhecer e de não conhecer Khalil. Meu silêncio não está Nos ajudando.”

Além de enfrentar esse pesadelo, o enredo também acompanha os dilemas diários de Starr. Os pais fazem questão que ela tenha a melhor educação, e ela e os irmãos estudam em uma escola particular em outro bairro onde eles praticamente são os únicos negros. Lá ela tem duas melhores amigas e um namorado branco e tenta ser uma pessoa diferente. Evita os palavrões e as gírias para não ser associada à violência do gueto onde vive. Assim, é uma luta constante tentar ser duas pessoas diferentes e não deixar que seus mundos colidam. Como ela poderia contar ao namorado a às amigas da escola que o garoto assassinado era seu melhor amigo? Como dizer que ela é a testemunha-chave do caso? Mas como ignorar a morte de Khalil?

“Eu me sinto péssima agora. Não consigo acreditar que deixei Hailey dizer aquilo. Ou ela sempre fez piada assim? Eu sempre ri porque achava que tinha que rir? Esse é o problema. Nós deixamos as pessoas dizerem coisas, e elas dizem tanto que se torna uma coisa natural para elas e normal para nós. Qual é o sentido de ter voz se você vai ficar em silêncio nos momentos em que não deveria?”

Esse livro é tão incrível que chega a ser difícil para mim escrever sobre ele. Acho que eu precisaria de uma resenha gigantesca para falar sobre todas as referências, ensinamentos, reflexões que estão nessas páginas, mas houveram dois momento que me marcaram mais e que representam bem o que o livro significou para mim, especialmente por falarem de temas que já estavam quase esquecidos.

O primeiro foi na noite em que Khalil morreu. Ele e Starr estão no carro ouvindo Tupac, um rapper americano que fez sucesso com seu ativismo nas décadas de 80 e 90, e que eu conhecia muito pouco (agora não paro de ouvir!). Ele canta Thug Life e Khalil explica a Starr que Thug Life, que aqui no Brasil é conhecido como “Vida Bandida”, é a abreviação de “The hate u give little infants fucks everybody”, ou “O ódio que você passa pras criancinhas fode com todo mundo”. Khalil explica que é um estilo de vida das pessoas que enfrentam muitas adversidades ao longo da vida, mas que nunca desistem de lutar pelos seus objetivos e sonhos. Eu achei uma pena que o real sentido da expressão tenha se perdido e que os jovens de hoje a usem de maneira tão deturpada. Nesse vídeo aqui, Tupac explica o conceito de Thug Life caso vocês queiram saber mais.

O segundo é um diálogo que aconteceu entre Starr e seu pai Big Mav, que é simpatizante dos Panteras Negras, ex-traficante e atual dono de mercado, sobre a violência no bairro. Eles falam sobre racismo, falta de oportunidades e que o sistema político e social é feito para ferrar os negros. Que por mais que eles se esforcem por um vida melhor, as oportunidades são poucas, as escolas não oferecem uma educação de qualidade e por isso eles são despreparados para o mercado de trabalho. Um círculo vicioso que prende o negro à vida pobre e sem perspectivas e que muito pouco é feito para mudar a situação. Há muito tempo que não lia alguma referência sobre os Panteras Negras e o seu Programa de Dez Pontos, que Big Mav faz os filhos decorar, e Angie Thomas soube trazer o tema no enredo de uma maneira que vai atiçar a curiosidade e levar muito adolescente a pesquisar a respeito.

“Papai me disse uma vez que tem uma fúria que é passada para todos os negros pelos ancestrais, gerada no momento em que eles não conseguiram impedir que os donos de escravos machucassem suas famílias. Papai também disse que não tem nada mais perigoso do que a hora em que essa fúria é ativada.”

Mais do que um livro, “O ódio que você semeia” é uma bandeira contra todo o racismo e a discriminação. E por ser escrito para jovens, ele tem uma linguagem muito acessível e vai informar e conscientizar sobre o quanto o preconceito pode destruir vidas. Mesmo que a história seja toda ficcional, ela é inspirada em fatos reais e poderia se passar em qualquer comunidade, tanto norte americana quanto brasileira. Não será apenas um livro que vai mudar a realidade de discriminação e violência que a população negra vive, mas com certeza ele é mais um passo para a busca pela igualdade.


O livro teve seus direitos vendidos para o cinema e terá a participação do ator/rapper Common confirmada como o tio de Starr, que é policial. Além dele, temos também Amandla Stenberg, Regina Hall, Russel Hornsby e Algee Smith no elenco, então já imagina, esse vai ser um filmaço. A direção fica por conta de George Tillman Jr.

A Autora

Angie Thomas nasceu, foi criada e ainda vive em Jackson, no Mississipi, o que se percebe pelo sotaque. Quando adolescente, era rapper e sua maior conquista foi ter escrito um artigo sobre si mesma na Right-On Magazine (com foto). É bacharel em Creative Writing pela Belhaven University e possui um diploma não oficial em Hip Hop. Ela ainda sabe fazer rap, se for preciso. Seu livro de estreia, O ódio que você semeia (The hate U give), foi o primeiro a vencer o Walter Dean Meyers Grant, em 2015, na categoria We Need Diverse Books. O romance será adaptado para o cinema, pela Fox, e chegou ao primeiro lugar da lista do New York Times na semana do seu lançamento.

Avaliação (5/5)


B-jussssss! ♥
;-p

5 comentários:

  1. Oi, tudo bem? Esse realmente parece ser um livro incrível! A cada resenha que eu leio dele me sinto com mais vontade de lê-lo. A sua foi tão emocionante de ler, que já me sinto cativada pela história. Gosto de livros que possuem uma temática que nos faz refletir não apenas sobre a sociedade, mas também como nossos próprio atos. Infelizmente é uma realidade que praticamente virou normal, e não deveria ser assim. Parabéns pela resenha!
    Beijos
    Conta-se um Livro

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  2. Eu já tinha lido coisas sobre esse livro e que e chamou a atenção de maneira positiva.
    Já está na minha lista de leitura a um tempo, só não sabia que viraria adaptação.
    Super legal!
    Adorei sua resenha.

    Beijinho!!

    #Ana Souza
    https://literakaos.wordpress.com

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  3. Olá! Estou vendo ótimas críticas sobre esse livro e a sua resenha foi a mais completa que li, passou a essência do livro. É um tema bem atual e que acontece no mundo todo, infelizmente. Pretendo ler com toda a certeza, beijos!

    Entre Livros e Pergaminhos

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  4. Oi!
    Eu adoro livros voltados para o público jovem e se abordar temas tão importantes, melhor ainda. Eu já estava curiosa para ler esse livro, e agora só fiquei mais animada.
    Beijos

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  5. Oiiii, estou super ansiosa para ler esse livro, só tenho visto elogios a ele e vou inclui-lo logo na minha lista de futuras leituras. Amei a sua resenha e a forma com a qual falou do livro!

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