Cruzando o Caminho do Sol - Corban Addison


"Ela sempre se lembraria da irmã. Ela sempre se lembraria da pessoa que ela foi e da Índia que conheceram antes antes de toda aquela loucura. O mundo podia roubar sua liberdade; podia acabar com sua inocência; podia destruir sua família e arrastá-las por caminhos para além de seu entendimento. Mas não podia privá-las de sua memória." (p. 299)

As irmãs Ahalya e Sita Ghai tinham uma vida confortável na Índia. Filhas de uma família abastada, adoradas pelos pais, tinham acesso à todo conforto que que o dinheiro pode dar à duas adolescentes que se preparam para um futuro brilhante. Mas na manhã de Natal, um tsunami destrói seus sonhos. As meninas perdem seus pais, sua casa e toda a segurança do mundo que conhecem.

Kanan se aproxima das meninas e promete ajudá-las a chegar em segurança ao colégio de freiras onde elas estudavam. Mas, ao invés disso, ela as vende para Suchir, dono de um bordel em Mumbai que explora mulheres e crianças. As meninas são mantidas trancafiadas em um sótão imundo e Ahalya é protituída e violentada enquanto Sita assiste a tudo sem poder reagir, apenas esperando o dia em que chegaria sua vez.

Do outro lado do oceano, em Washington, Thomas Clarke também vê seu mundo desmoronar. Advogado em uma grande corporação, ele está trabalhando em um grande caso e seu sucesso será essencial para que ele chegue a sócio. Para atingir seus objetivos ele trabalha incansavelmente, esquecendo-se de sua esposa Priya, que, sozinha, tenta superar a morte da filha do casal, Mohini. Thomas perde o caso e se torna o bode expiatório do escritório, o que o obriga a se afastar para um ano sabático trabalhando em alguma ONG. Ao mesmo tempo, Priya cansada da indiferença de Thomas, volta à Índia para viver com seus pais.

Numa manhã, enquanto tentava decidir o que fazer, Thomas assiste a um sequestro. Uma garotinha de dez anos é levada de sua mãe e a polícia acredita que o objetivo é a exploração sexual, crime muito comum na região. Essa cena mexe muito com Thomas, a garotinha poderia ser Mohini. Por isso ele decide viajar à Índia para trabalhar na Aces, uma instituição que denuncia o tráfico de pessoas, e tentar reatar com sua esposa.

E é aí que a vida dos três personagens vão se cruzar.

Trabalhando na Aces, Thomas participa de uma ação policial que invade o bordel de Suchir e liberta Ahalya, porém Sita não estava mais lá. A menina já tinha sido vendida para Nahim, que a tirou do país. Ahalya é encaminhada para um ashran (orfanato), mas ela está desesperada por notícias da irmã. Em uma visita de Thomas, ela prende uma pulseira em seu pulso e pede para que ele a ajuda a encontrar Sita.

"-Você nunca ouviu falar de uma pulseira rakhi? [...] É uma tradição indiana que remonta há milhares de anos. Uma mulher entrega a um homem uma pulseira para ser amarrada em seu pulso. A pulseira significa que aquele homem é seu irmão. Ele assume o dever de agir em sua defesa." (p. 219)

Começa então uma perseguição alucinante, em que Thomas vai tentar usar todos os meios para encontrar Sita. Ele vai viajar por três continentes e mergulhar numa jornada pelo submundo do tráfico humano e da exploração sexual de crianças para cumprir a promessa que fez à Ahalya.

Cruzando o Caminho do Sol é um livro impressionante, que nos toca por denunciar crimes tão brutais cometidos contra crianças. Ler a transformação de Sita e Ahalya em mulheres é tão sofrido que acredito que vou demorar meses para me esquecer do que li. Humilhação, desespero, angústia, medo - tudo está transcrito ali de uma maneira tão objetiva que acho difícil que alguém não se impressione.

Mas, mais do que os horrores que essas crianças vivem nas mãos de seus exploradores, o pior de tudo e ler o quanto a justiça está atrasado em relação aos bandidos. É tanta burocracia e corrupção que parecia ser impossível que algum dia Thomas conseguisse resgatar alguém. A impressão que dá é que eles estão falando apenas de números e símbolos em um papel, e não da vida de uma criança. É revoltante! Criminosos são soltos por falta de provas e incompetência de policiais, juízes são comprados e acusados ameaçam testemunhas livremente.

E o pior de tudo é nós sabemos que isso ocorre todos os dias em todas as partes do mundo. O tráfico humano é negócio muito lucrativo para que as autoridades se mobilizem em uma ação que traga resultados efetivos. Os maiores envolvidos são pessoas ricas e poderosas, que não são pegas facilmente. Infelizmente, é essa a mensagem que o livro nos traz.

"- Você não está aqui porque eu sinto prazer no comércio sexual. Você está aqui porque existem homens que gostam de pagar por sexo. Eu sou apenas o intermediário. Alguns homens de negócios vendem objetos. Outros vendem conhecimento. Eu vendo fantasias. É tudo a mesma coisa." (p. 394)

Ou seja, mais do que combater o tráfico e a exploração de crianças, seria necessário tratar esses pervertidos que se divertem abusando de crianças.

Mesmo abordando um tema tão pesado que me impressionou tanto, Corban Addison soube tratá-lo na medida certa, sem dramas e sensacionalismos. Ele consegue passar sua mensagem sem apelar para descrições de cenas pesadas, que eu particularmente detesto! (Exemplo: O Caçador de Pipas)
A narrativa em terceira pessoa é ótima, pois dá para acompanhar a visão de todos os personagens e entender melhor todas as reviravoltas que a história dá, e são muitas! 

Quanto aos personagens, é impossível não gostar das irmãs Ghai. A força e a resignação que elas demonstram diante do sofrimento é impressionante, principalmente em Ahalya. Thomas em vários momentos é indeciso e meio canalha com Priya e achei que ele não fosse conseguir cumprir sua promessa. Mas ele vai amadurecendo durante as páginas, mais até do que as meninas.

E mais uma resenha enorme! 
Mas dessa vez foi inevitável mesmo, pois Cruzando o Caminho do Sol é um daqueles livros que marcam a gente por nos levar a refletir melhor sobre um problema tão grave e tão pouco abordado. Mas do que uma linda história, o livro traz também uma mensagem de alerta que todos deveriam ler.

B-jusssss! ♥
;-p


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