Fera - Brie Spangler


SPANGLER, Brie. Fera. Tradução Eric Novello. São Paulo: Editora Seguinte, 2017. 384 p. Título original: Beast. Skoob.

Sinopse:
 “Dylan não é como a maior parte dos garotos de quinze anos. Ele é corpulento, tem quase dois metros de altura e tantos pelos no corpo que acabou ganhando o apelido de Fera na escola. Quando ele conhece Jamie, em uma sessão de terapia em grupo para adolescentes, se apaixona quase instantaneamente. Ela é linda, engraçada, inteligente e, ao contrário de todas as pessoas de sua idade, parece não se importar nem um pouco com a aparência dele. O que Dylan não sabe de início, porém, é que Jamie também não é como a maioria das garotas de quinze anos - ela é transgênera, ou seja, se identifica com o gênero feminino, mas foi designada com o sexo masculino ao nascer. Agora Dylan vai ter que decidir entre esconder seus sentimentos por medo do que os outros podem pensar ou enfrentar seus preconceitos e seguir seu coração.” 
Nos últimos anos tem aumentado consideravelmente o número de livros com a temática LGBT e eu acho isso incrível! É maravilhoso que a literatura esteja abrindo espaço e dando representatividade para outras orientações sexuais além da hetero. O mundo nunca foi apenas feito por homens e mulheres, entre essas duas identidades existem dezenas de outras que ficam nas margens, oprimidas por um sistema injusto que teima em mantê-las invisíveis. Mas já passou da hora de darmos um basta nisso e aprendermos a olhar com naturalidade para todos, independente de sua aparência ou identidade sexual e por isso acho de extrema importância que cada vez mais os livros, os filmes, a TV tragam personagens que estejam fora dos padrões para que os que se consideram “normais” entendam que não são os que ditam as regras.

Dylan tem quinze e mede quase dois metros e, como se isso não fosse problema suficiente, ele tem o corpo coberto de pelos e se barbeia todos os dias desde os onze anos. Sua aparência é tão diferente dos demais meninos que ele tem o apelido de Fera. Mas Dylan se sente muito incomodado com isso, tanto que deixou o cabelo crescer e vive com um boné enterrado na cabeça, como uma maneira de se esconder. O problema é que escola proibiu o uso de bonés e cabelos compridos e seu melhor amigo JP o convence a cortar o cabelo e, numa brincadeira de extremo mal gosto, o barbeiro raspa sua cabeça.

Se sentindo exposto e muito fragilizado, Dylan “cai” do telhado de sua casa tentando pegar um bola e quebra a perna. A questão é que seu médico acredita que ele possa ter se jogado e nem mesmo o garoto tem certeza se o que aconteceu foi um acidente ou o resultado de sua frustração com a vida. Assim, ele se vê obrigado a frequentar a terapia em grupo para adolescentes e é lá que ele conhece Jamie, a garota mais bonita e interessante que ele já viu.

Para sua surpresa, os dois se aproximam muito rápido e a amizade logo se transforma em algo mais. Mas quando Dylan apresenta Jamie à JP ele descobre algo que não tinha notado: Jamie é transgênera. O garoto então entre em parafuso e não sabe como lidar com os sentimentos que tem por Jamie. Mesmo se tornando o alvo das piada da escola inteira, ela ainda é a melhor pessoa que ele já conheceu e Dylan sente que não quer se afastar.

“- Só queria que você soubesse que não está sozinho. - Ela encosta o nariz no meu ombro. - Caso se sinta grande demais, saiba que é só porque às vezes o mundo é meio pequeno.” (p.102)

Sinceramente ainda não sei o que pensar sobre esse livro. Tem momentos que sinto que odiei a leitura e tem outros em que parece que não foi tão ruim. Isso porque eu comecei a leitura com uma expectativa enorme, esperando ver, enfim, um romance que desse representatividade ao trans, mas não foi bem isso o que aconteceu.

Primeiro porque a narrativa é um pouco confusa e truncada e segundo porque a autora não desenvolveu bem os personagens. Ela criou um grupo de pessoas incríveis e tinha tudo para escrever uma tremenda história, mas acabou deixando todos muito fragilizados e, ao invés de sentir pena ou me identificar com eles, acabei ficando com irritação. Ou seja, empatia zero!

Jamie, a personagem mais interessante do livro, quase não aparece. Aliás, esse seria um excelente livro para ter a narrativa com dois pontos de vista, pois seria muito mais interessante se pudéssemos saber também da visão de Jamie sobre os acontecimentos. Se ela tivesse voz na narrativa, poderia ter falado mais sobre sua história de vida e o enredo ficaria muito mais rico. Mas como a história toda é narrada em primeira pessoa pelo Dylan, tudo o que temos é o garoto numa reclamação sem fim do quanto odeia seu corpo, do quanto sente falta do pai, do quanto seu melhor amigo é ingrato e sua mãe superprotetora, o quanto o mundo é injusto por ele ter se apaixonado por uma garota trans. Eu entendo os motivos dele, e entendo que não seja fácil enfrentar os padrões impostos pela sociedade com tão pouca idade, mas não justifica as vezes em que ele foi cruel com Jamie. Isso para mim foi imperdoável.

“- Falando sério, o que é um homem? - pergunto. - Um cara com barba, pelo no peito e voz grave? Grande coisa. Se é só isso o que basta para ser um homem, eu já era um no sétimo ano, mas não passava de um merdinha completo na época. Agora eu sei. Ser uma pessoa não tem nada a ver com a embalagem. Só tem a ver com ser bom. E eu não fui bom com você, mas espero ter uma chance de ser no futuro.” (p.348)

Mas o livro não é de todo ruim. Mesmo não sendo revolucionário como eu esperava, ele já ganha mil pontos positivos por tratar do assunto com adolescentes, para um público que carece de informações e conhecimento sobre o tema. Ele abre um espaço valioso para discussão e isso por si só já faz deste um livro de grande importância. E por isso recomendo a leitura, para que possamos nos sentir um pouco na pele dos que se sentem rejeitados por coisas que não podem mudar em si mesmos, por coisas que nunca foram um “opção” na vida deles.

A Autora

Brie Spangler é uma escritora e ilustradora americana nascida em Boston. Desde a sua graduação na Escola Superior de Design de Rhode Island, Brie trabalhou como freelancer para diversas editoras e revistas. Quando não está tirando fotos ou escrevendo, pode ser encontrada tomando muito café, evitando a luz do sol e se aconchegando com o marido e a filha. Fera é seu primeiro livro para o público jovem adulto.

Avaliação (3/5)

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